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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

PRECISA-SE DE ALGUÉM PARA CUIDAR... DE MIM

Sexto romance escrito por Wind Rose. Postado pela primeira vez em 2009.





PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
Este texto não caiu do céu, é resultado de MUITO trabalho.
Todos os direitos reservados. 

Proibida a reprodução, adaptação ou disponibilização para download,  no todo ou em parte, através de quaisquer meios, sem a autorização da autora. 
Lei de Direitos Autorais nº. 9.610/98



Lembrando que... Copiar a história apenas trocando o nome das personagens não é fanfiction nem adaptação, é plágio. Por favor, não façam isso, ok?





Capítulo 1


Como diria o poeta... “Ahh! A morte, fim de...” na verdade não lembro mais o que ele dizia. Na verdade da verdade, sempre tive problemas para guardar qualquer citação, mas na verdade verdadeira mesmo, nunca gostei de poesias. Assumia que gostava porque diziam que as pessoas cultas deveriam gostar delas, e como fazia parte de uma casta privilegiada eleita intelectual, caí nessa. Mas nunca enganei Giovanna, ela sempre soube, pois ama (va) poesias e sempre tinha uma citação de algum autor pra fazer no momento certo. Amava... Amo isso nela.

Mas voltando à morte, mesmo não me lembrando o que o poeta dizia, sempre achei que morrer era algo doloroso e definitivo, mas descobri que o que dói realmente não é a morte, mas continuar vivendo. Atire a primeira pedra quem... Não! Recolha a primeira pedra -- das muitas que me jogaram -- quem tiver a coragem de negar que não mudaria seu destino ao saber o dia de sua morte. Aquela pessoa, que possuindo a informação “fresquinha” do Ser enviado para ajudá-la a fazer a travessia até o reino, o qual e cujas ações faz-se reserva, não diria: “Podemos negociar?”

É... Mas como saber qual evento desencadeará tal destino? Que momento nossas escolhas nos colocam diante da felicidade ou da desgraça?

Se tivéssemos um anjinho soprando em nossos ouvidos e impedindo, aquele conhecido “meter os pés pelas mãos”.

 Talvez esse anjinho exista, porém não o percebemos, não naquele momento. Creio que isso é planejado, ainda não descobri, pois se soubéssemos ou identificássemos o anjinho, perderia a graça. O quê? A vida. Seria como ler o final do livro, antes do primeiro capítulo.

Assim, um pequeno sopro poderá mover nuvens, derrubar castelos, acabar com sonhos ou apenas fazer voar alguns papéis...

Começou assim... 

Naquele domingo, diferente dos outros dias da semana, Antonella acordou mais tarde do que o habitual. Após mais uma noite de insônia, o sono a encontrou quando o sol já anunciava os primeiros raios de mais uma manhã de outono ainda quente. Naquela sentiu-se bem, não sabia se era o sono renovador ou a esperança que surgia todo o domingo, cada vez que pensava na possibilidade de abrir o jornal e encontrar a solução para seus problemas.

Apesar de ter a consciência de que não poderia colocar no fato de não ter um emprego toda a responsabilidade de sua insatisfação pessoal, baixa estima, desmotivação e todas as coisas que faltavam e que se estenderiam numa lista imensa, sabia que, se tivesse um, pelo menos, teria motivos para abrir os olhos pela manhã.

No momento, até aquele domingo, não havia. Há mais de dois meses procurava emprego, sem sucesso, pois o fato de não ter terminado a faculdade, aliado a sua pouca experiência, dificultava sua colocação. Se soubesse disso, há alguns anos, teria feito diferente. Mas como saber? Muitas vezes se pegou revisando mentalmente fatos de sua vida e tentando identificar os momentos nos quais deveria ter feito outras escolhas. Arrependimento? Sim, muitos. Principalmente o de ter mentido para si mesma durante alguns anos, dos dez que viveu ao lado de Alberto, o homem que considerava, até oito meses atrás, ser a razão de sua existência.

 Descobriu da pior forma possível que a verdade não é tão evidente assim. A verdade, às vezes, se esconde nos cantos escuros da nossa alma, naqueles locais que fedem a mofo.  Toda raiva e nojo que sentiu canalizaram para fugir daquela vida construída sobre areia movediça. Sabia que não teria uma mão para puxá-la, por isso se agarrou no primeiro galho que viu e saiu, arrastando-se.

 Ao abrir aquela porta e deparar-se com a verdade, teve a revelação de muitas outras. Nenhuma explicação, nenhuma palavra, nada. O silêncio revelava a evidência e, o olhar, a decepção. Os gestos lentos, os passos decididos para um futuro incerto, a batida na porta. O fim. Voltou um mês depois para pegar suas coisas e enfrentar a dor da decepção de frente. Encontrou um homem feliz, talvez por ter conseguido se livrar dela. Foi o que pensou na ocasião.

Na separação, além das vidas, dividiram os livros, os CDs; ficou com a TV, a geladeira, o sofá da sala, o carro, a frustração e marcas profundas. Deixou para trás o fogão, a cama, o aluguel, os planos de ter um filho, as fantasias e os sonhos de uma vida perfeita. Não tinham mais nada.

Mudou-se para Porto Alegre, para fugir de todas as lembranças e dos comentários que com certeza ocorreriam na pequena cidade do interior, onde acreditava que viveria o resto de sua vida ao lado do homem que a encantou desde o primeiro encontro. Com o tempo, percebeu que este encantamento havia se transformado no hábito de tê-lo sempre por perto. Distanciaram-se ao longo dos anos. Segundo suas amigas, comum em todo casamento, mas que agora sabia tratar-se de algo mais profundo.

O fato de não ter família, pois seus pais já haviam morrido há alguns anos, e não ter irmãos fazia com que se sentisse sozinha no mundo. Embora Alberto estivesse sempre presente, ajudando em tudo que podia como o aluguel e outras despesas, ela queria se livrar desta dependência. Queria se livrar dele e das lembranças que vinham juntas. Precisava encontrar o rumo de sua vida. Queria voltar à universidade e precisava de um trabalho.

A fumaça do cigarro subindo em direção ao teto fazia moldura para seus pensamentos: “preciso parar de fumar”. Suspirou, mais um gole de café e resolveu abrir o jornal, na parte dos classificados. Passou os olhos...

O primeiro anúncio que leu:

“Vendedor de loja, exige-se experiência”.

Riscou, pois em sua mente a única lembrança que tinha de ter vendido algo, foi sua bicicleta quando tinha 13 anos e mesmo assim, não recebeu o pagamento.

Outro anúncio:

“Secretária executiva, bilíngüe”.
 Imaginou que nem o português sabia direito, quanto mais qualquer outro idioma. Era daquelas que cantava músicas inglesas bem alto e completamente errado... Sorriu disto.

Continuou:

“Auxiliar de almoxarifado, com experiência”.

Seus pensamentos davam o tom do seu desespero. “Experiência em quê? Guardar caixas???”

Mais um:

“Telemarketing, com cursos de marketing e vendas”.

E assim, sucessivamente, aqueles que não exigiam experiência, queriam que o candidato tivesse cursos na área. Não se encaixava em nada. Olhou para a página toda riscada, ficou angustiada, irritada, fechou o jornal bruscamente e levantou-se... Outro cigarro.

Estava saindo da cozinha quando uma forte brisa abriu a janela fazendo voar algumas folhas do jornal. Antonella voltou, olhou para a janela sem entender de onde veio aquele vento repentino, porém não deu importância ao fato e juntou as folhas do jornal que caíram no chão. Ao colocá-las sobre a mesa, viu no jornal aberto um pequeno anúncio, no final da página, que lhe chamou a atenção. Segurou o jornal com as duas mãos e leu:

“Procuro alguém para cuidar de criança e que: goste de ler, assistir desenhos, jogar bola, trocar fraldas. Que tenha imaginação fértil, acredite em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e faça companhia a meu filho, enquanto trabalho. Importante: que tenha disponibilidade para dormir no emprego. Com referências. Interessadas ligar para...”

Anotou o número do celular e correu para o telefone. A pessoa que atendeu, uma senhora, não deu muitos detalhes, apenas forneceu o endereço e o horário da entrevista: segunda-feira às 10:30.

Desligou e sorriu.

Pela primeira vez percebeu que existia uma possibilidade, pois além de trabalho encontraria, também, um lugar para morar sem depender de Alberto.

****
Giovanna acordou naquela manhã olhando para o teto do quarto. Nas contas dela era o 375° dia sem Camila. Sentiu de imediato, na cabeça, o resultado das duas garrafas de vinho e do cigarro. Moveu-se para se levantar, mas seu corpo reclamou. A dor e as manchas avermelhadas na perna revelavam o embate pelo qual passou na noite anterior. O sexo vazio, porém necessário. Aquele que sempre surgia salvador, redentor, mas que quando se esvaia, morria, junto com sua alma, todas as noites. Um rito de passagem. Uma quase morte, para conseguir viver uma quase vida.
E assim… Mais um dia começava.
* * * *
Giovanna desceu as escadas com Enzo no colo, chorando. Assim que viu Francisca, jogou-o nos braços dela.
– Bom dia, Francisca. Não sei por que ele chora dessa forma — falou com irritação.
Francisca pegou o menino e o abraçou, fazendo-o se acalmar.
– Já pensou que o que ele quer é um pouquinho de carinho, Giovanna? Atenção de sua parte?
Sem responder, entrou na biblioteca e foi em direção ao telefone. Precisava resolver de uma vez por todas o problema que surgiu quando Silvia, a babá, resolveu pedir demissão. Tinha muitas coisas para lidar na empresa e, há três dias, desde que Silvia saiu, tinha que chegar mais cedo em casa e sair mais tarde. Estava no meio de uma negociação, que daria a ela a possibilidade de mostrar ao avô que era a pessoa certa para assumir a vice-presidência das empresas. Esse era o objetivo que assumiu para sua vida desde que decidiu que viveria somente para o trabalho. Foi a solução que encontrou para continuar vivendo após a morte de Camila.
Sua vida se resumia ao trabalho e a algumas saídas com mulheres que, por alguns instantes, faziam-na esquecer do sofrimento que sentia. Mas tão logo terminava, retornava com carga total. Não tinha vida pessoal, o único elo que a trazia para algo que tentava abandonar era o filho, e os poucos momentos que tinham, não eram fáceis. Ele representava tudo aquilo que um dia amou e viveu para ter, mas que havia perdido de forma brusca. Portanto, representava o amor perdido e que tinha certeza… Jamais viveria novamente.
Giovanna tentou, pela quinta vez, a ligação para a agência de babás, mais uma vez foi em vão, olhou desanimada para Francisca e falou num pesar.
– Não há ninguém que atenda as exigências… Somente para o dia — suspirou.
– Giovanna, eu fico. Já falei a você que posso dar conta de Enzo duas noites — Francisca tentou acalmá-la, mas sabia que seria em vão.
Giovanna respondeu sem olhar para ela, com os cotovelos na mesa, segurando a cabeça com as mãos.
– Sim! Duas noites, e as próximas? Não será a última vez que vou precisar viajar e desde que Silvia saiu, estou tendo que adiar reuniões ou ter que contar com sua boa vontade.
Levantou a cabeça e olhou para Francisca, demonstrando o sofrimento que somente ela conhecia.
Continuou:
– Você precisa cuidar de seu marido, que necessita de atenção nesse momento. Enzo e eu somos estorvo para você. Tenho que encontrar alguém — falou olhando para a mulher que há sete anos a ajudava com a casa e que havia participado dos momentos felizes que viveu ao lado de Camila e que, também, vinha presenciando os momentos de desespero que Giovanna vivia desde a morte de sua amada mulher.
Francisca respondeu, no mesmo tom:
– Posso pedir ajuda a Celina — tentou já prevendo a resposta.
Giovanna riu, como se não acreditasse no que havia ouvido, e respondeu:
– Celina não consegue cuidar nem dela, imagina de Enzo.
Recebeu de Francisca um sorriso e a aceitação:
– É… Eu sei, porém acho ótimo que Silvia tenha saído. Você sabe que ela não gostava de crianças, estava aqui pelo dinheiro. Aliás, essas agências deveriam ver se, no mínimo, a pessoa tem perfil para ficar com uma criança.
– Mas pelo menos, era alguém em que podia confiar e que cuidava bem de Enzo — respondeu fechando o notebook e guardando-o na pasta.
– Giovanna, Enzo não precisa de alguém que cuide bem… Precisa de você — Francisca falou aproximando-se da mulher alta que já estava pronta para sair da sala.
Sem levantar o olhar para a senhora, respondeu de forma ríspida:
– Ele tem tudo que precisa e sempre terá. Não falta nada.
Antes de sair da sala, Francisca recebeu o frio olhar azul de Giovanna, cuja luminosidade e calor havia se perdido junto com a morte da mulher. Viu a porta bater e, por alguns momentos, lembrou-se dos momentos felizes que presenciou naquela mesma sala. Olhou para a foto de Camila, com uma enorme barriga e Giovanna com os braços em torno dela.
Lembrou de quando Camila, ao lado de Giovanna, anunciou a ela a chegada de Enzo. Camila carregava no ventre o óvulo fecundado de Giovanna. Elas olhavam uma para a outra e a luminosidade dos olhares refletia a felicidade que não poderia ter fim… Mas teve.
Deu um beijo em Enzo e falou baixinho para ele:
– Um dia ela supera, meu querido.
Moveu-se em direção à porta ao mesmo tempo em que secava a lágrima que caia em sua face. Antes de fechar a biblioteca, olhou para os livros nas paredes e novamente para uma foto de Camila, que estava sobre a mesa. O olhar de Camila para a barriga. Uma idéia surgiu. Titubeou e perguntou para a mulher no porta-retratos: “Será, Camilinha? Acha que ela vai concordar? Sim, temos que tentar…”
Largou Enzo sobre o tapete da enorme sala.
– Espera um pouquinho, Enzo, já volto — e correu em direção à porta da frente, com a intenção de alcançar Giovanna antes que a mulher saísse.
Chegou a tempo, ela estava se dirigindo para o carro estacionado em frente à porta.
– Giovanna! — gritou.
– Sim, Francisca — respondeu com a porta do carro aberta.
– E se em vez de chamar alguém pela agência, fizermos um anúncio no jornal? Você mesma escolhe a pessoa, faz as entrevistas. Afinal, já está habituada a isto.
– Francisca, nunca contratei uma babá na empresa, nem sei como fazer isso — respondeu sem paciência.
– Se me autorizar, faço o anúncio e marco as entrevistas. Você precisa apenas conversar com elas — falou na esperança de convencê-la.
Giovanna ficou em silêncio por alguns momentos, fez um movimento em direção ao carro e respondeu:
– Faça!
Francisca respondeu com um aceno, fechou a porta, dirigiu-se para a biblioteca. Pegou Enzo no colo e sentou-se em frente à mesa onde estava a foto de Camila. Olhou firmemente para a mulher grávida: “Eles precisam de você agora…”.
Suspirou e começou a escrever o anúncio. Quando terminou, leu, releu e proferiu, num pedido, olhando para a foto de Camila:
– Faça chegar à pessoa certa.

Capítulo 2


Às 10h30, Antonella estava na frente da casa. Foi de táxi, pois se tratava de um condomínio retirado da cidade e pela fachada da residência, percebeu o padrão social das pessoas que viviam nela. A senhora que atendeu a porta - cabelos grisalhos, baixinha, com olhos castanhos profundos e com um sorriso amigável - falou tão logo a viu:

-- Deve ser a senhorita Antonella.

-- Sim, senhora -- Antonella respondeu retribuindo o sorriso.

-- Entre, a senhora Giovanna está terminado com uma candidata que marcamos antes de você.

-- Obrigada.

Antonella adentrou na casa tendo a impressão de que entrava num mundo antigo. Os móveis de madeira envelhecidos remetiam o observador ao século passado. Achou bonito, mas não combinava com o que considerava agradável, confortável. Ficou numa sala enorme, com dois sofás dispostos no centro, num dos quais se sentou. Tentou amenizar o nervosismo que sentia observando os quadros e a decoração da sala. Notou que não havia nenhuma foto, apenas quadros de paisagens ou de casas em ruas antigas. Começou a puxar uma mecha do cabelo, dar pequenos nós e desfazer. Fazia isso quando estava nervosa.

Depois de mais ou menos 10 minutos, a mesma senhora simpática retornou, sentou-se no sofá à sua frente e perguntou, sem tirar os olhos do papel que carregava nas mãos com o nome das candidatas.

 -- Trouxe a carta de referência?

Antonella sentiu seu rosto corar, olhou para o chão por alguns instantes, mas uma força que tirou não sabe de onde, a fez olhar firme para a senhora à sua frente e responder:

-- Não tenho referências, senhora.

-- Então, sinto mui...

Não terminou a frase, pois ao encontrar o olhar determinado e luminoso de Antonella, sua reação mudou. Ficou em silêncio por alguns momentos, procurando justificar para si mesma o porquê de não dispensá-la naquele momento. Sem encontrar esta resposta, sentenciou a uma Antonella ansiosa:

-- Mesmo não cumprindo um dos requisitos determinados pela senhora Giovanna, vou encaminhá-la para conversar com ela.

O sorriso de alegria de Antonella, quase que infantil, foi para Francisca a confirmação de que não estava errada.   

-- Vamos, menina, ela está aguardando.

-- Mas a outra pessoa já saiu? Não observei.

Francisca sorriu, percebeu que ela estava nervosa.

-- Saiu pelo escritório -- respondeu.

-- Ahn...

Antonella fez um sinal de confirmação e espanto com a cabeça, e sorriu. Acompanhou a senhora que a conduzia por um corredor com enormes quadros e artefatos artesanais de diversas partes do mundo. Atravessaram outra imensa sala, igualmente decorada, com uma grande mesa no centro.

A senhora abriu a porta dupla com as duas mãos e a primeira imagem que Antonella viu foi de uma criança, um menino que se firmando no enorme sofá, caminhava em direção a alguns carrinhos. Tentou soltar as mãos e ir em direção ao outro lado, porém, não tinha coragem de soltar a pequena mão, que segurava firme no sofá.

-- Aguarde um instante, ela logo atenderá a senhorita -- falou e se afastou, deixando Antonella, que naquele momento não ouviu as últimas palavras da senhora.

Já estava de joelhos no chão dando a mão ao menino e ajudando-o a ir em direção ao outro sofá. Ele alcançou o carrinho e olhou para ela, que sorriu. O sorriso que recebeu de volta, iluminado pelo olhar azul como o céu a fez ter vontade de segurá-lo. Não resistiu, pegou-o do chão e deu-lhe um beijo nas bochechas rosadas. Não percebeu a mulher parada na porta, observando-a...

***

Naquela manhã de segunda-feira, Francisca marcou cinco entrevistas, obrigando Giovanna a ficar em casa no período da manhã.

-- Espero que tudo isso dê resultado -- falou se encaminhando para a sala na qual havia escolhido receber as candidatas.

Preferiu não ser tão formal e optou por recebê-las na sala contígua ao grande salão de entrada, por ser mais confortável e mais íntima.

-- Vou deixar Enzo com você -- Francisca tentava de todas as formas aproximar Giovanna do filho.

-- Sim. Mas se ele não se comportar, chamo você -- Giovanna respondeu no momento em que Francisca o largou no colo dela.

Segurou-o e o largou, em seguida, no chão sobre o tapete, onde estavam dispostos carrinhos, bolas e jogos.

A primeira candidata, já no primeiro olhar, Giovanna percebeu tratar-se de uma senhora com idade que deveria estar em torno de 60 anos. Muito simpática, atenciosa, demonstrou carinho ao pegar Enzo no colo. Pensou imediatamente no que Camila falava sobre diferenças de gerações e dos conflitos que estas situações causavam. Não queria ter que administrar tais situações, pois sabia a personalidade forte do filho. Conversou rapidamente com a senhora, pois já havia decidido que ela não se adequava a função. Sem perder tempo, dispensou-a, agradeceu e despediu-se dizendo que Francisca ligaria para dar o retorno seja qual fosse.

A segunda candidata entrou e sequer olhou para o menino no chão. Foi com um sorriso aberto em direção a Giovanna e disparou:

-- Que casa maravilhosa a sua, e os móveis de muito bom-gosto.

Foi rápida da mesma forma. Não gostou, despediu-se e agradeceu. Na saída, a mulher passou a mão na cabeça do menino. Giovanna sorriu e pensou: “Camila me mataria”. Logo a tristeza invadiu-a novamente.

A seguinte que entrou, deixou claro que precisava de tempo para o marido, para os filhos, mas que conseguiria dar conta sem maiores problemas, falava rápido. Giovanna ouviu-a, mesmo procedimento anterior. Quando a porta fechou, suspirou.

Giovanna olhava para a mulher a sua frente, a quarta candidata, mas não a ouvia mais. Parou de ouvi-la no momento em que ela disse que toda criança precisava de uns tapas na bunda para saber o que era disciplina. Pensou: “Isso quem decide não é você”. Foi fria na despedida, estava irritada. Levantou-se tão logo a mulher fechou a porta, passou por Enzo, que tentava se levantar segurando-se no sofá.

Saiu da sala encontrando Francisca no caminho, que lhe dirigiu um olhar curioso.

-- Uma pior que a outra -- falou desanimada.

-- Calma, tem duas ainda.

-- Estou fazendo isso porque pediu, mas não acredito que encontraremos alguém dessa forma. Principalmente depois daquele anúncio, digamos -- estranho -- que você colocou. Só trouxe malucas.

-- Aonde vai? -- Francisca perguntou antes que ela sumisse em direção às escadas.

-- Ao banheiro, posso?

-- Rápido, tem outra esperando na biblioteca, e... Gostei dela.

-- Sei, vamos ver... Mais uma maluca. Olha o Enzo, por favor.

Subiu os degraus rapidamente. Suas longas pernas permitiam que os vencesse dois em dois sem esforço.

Quando retornou, não viu Francisca e imaginou que ela estaria com Enzo, esperando para encaminhar a próxima candidata. Dirigiu-se rápido para a sala. A imagem que viu fez com que aqueles segundos se arrastassem.

Uma mulher de joelhos no chão, de costas para ela, ajudando o filho a vencer a distância entre os dois sofás. O cabelo loiro brilhante, caindo nas costas, balançando conforme o movimento dos braços, a mão firme segurando a mão do menino que, pela primeira vez, dava os pequenos passos sem firmar-se em móveis. Percebeu o sorriso de Enzo para ela no momento em que chegou do outro lado. Surpreendeu-se quando ela o segurou do chão e o levantou junto ao corpo, dando-lhe um beijo na face. Lembrou-se da última vez que viu Camila beijá-lo.

Entrou na sala.

-- Bom dia.

Sem olhar para a mulher, como se tal ato fosse um desrespeito ao seu amor por Camila, como se a simples presença daquela mulher dentro da casa fosse ferir a redoma na qual havia se colocado, não podia permitir-se. Sentou-se segurando e olhando para o papel que Francisca havia feito as anotações das candidatas.

-- Antonella, senhora -- respondeu largando o menino no chão e dirigindo-se para o sofá em frente ao que Giovanna estava sentada. Enzo ao ser colocado no chão posicionou-se rapidamente para engatinhar atrás da mulher.

Antonella sentou-se e observou a mulher na sua frente, escrevendo algo compenetrada, como se fosse muito importante, sem olhar para ela. Ficou nervosa.

Giovanna continuou escrevendo, passou a caneta em cima de cada letra do nome já escrito por Francisca.

 “Antonella”, e calmamente levantou o olhar para a mulher à sua frente. A percepção que teve fez com que os poucos segundos se tornassem mágicos, pois duraram séculos em sua mente.  Percorreu lentamente o que viu e sentiu-se eterna no que não viu.

Com sandália de tiras largas amarradas no tornozelo, as pernas esguias e lisas, sendo ofuscadas pelo vestido que terminava no joelho e subia solto dando leveza ao corpo. Abaixo dos seios se tornava justo, valorizando as formas e indicando a beleza que estava intrínseca no conjunto. A boca pequena com lábios definidos, proporcionais ao rosto delicado, cujos olhos de um verde cristalino indicavam os motivos do encantamento de Enzo: parecia um anjo. O olhar profundo lhe desnudando a alma, como se arrancasse o que havia guardado no fundo de suas entranhas, ela o expunha... Assim, transformando o sagrado em profano, rapidamente. Não encontrou mais o anjo.

Antonella percebeu algo na mulher à sua frente que não conseguiu definir: uma tristeza imensa emanava de sua alma. Antes que pudesse olhar em seus olhos percebeu que o menino estava aos seus pés. Olhou para ele e sorriu. Abaixou-se e ajudou-o a se segurar no sofá em que ela estava sentada. Assim que percebeu que o menino estava firme, levantou os olhos para a mulher e encontrou um olhar cujo magnetismo a prendeu por alguns instantes: o azul cristalino combinado a uma escuridão que jamais viu. O mesmo olhar do menino.

Giovanna rompeu o olhar ao dirigir-se ao filho.

-- Este é Enzo.

-- Lindo menino e simpático – Sorriu sincera.

Giovanna ficou em silêncio por alguns momentos, pois não sabia mais o que dizer. Esqueceu-se completamente das perguntas que deveria fazer, tossiu, moveu-se na poltrona.

 Antonella olhava para ela esperando que começasse. Os segundos que se seguiram foram totalmente estranhos e angustiantes para as duas mulheres. Até que Antonella resolveu falar.

-- Creio que é para cuidar de Enzo, o anúncio, estou certa? -- perguntou sem jeito, mas firme.

-- Sim... É -- Giovanna limitou-se a dizer.

Pensava que tinha que perguntar algo, mas novamente Antonella falou antes.

-- Resolvi responder ao anúncio por alguns motivos que gostaria de deixar claros, pois não quero perder meu tempo nem o seu, portanto serei sincera com a senhora.

Buscou o olhar de Giovanna, que não conseguiu desviar, tampouco articular palavras. Apenas consentiu com a cabeça para que Antonella continuasse.

-- Apesar de não ter experiência nenhuma com crianças, adoro. Mas não tenho filhos por alguns motivos que não me permitiram. Estou me separando de meu marido e procuro independência financeira, tenho total disponibilidade e necessidade de morar no trabalho. Quanto às exigências do anúncio, bem... -- sorriu e continuou, diante do olhar indecifrável de Giovanna.

-- Adoro ler, leio muito; não jogo bola muito bem, mas aprendo. Nunca troquei fraldas, mas com umas aulas creio que não é difícil. Só tem um problema... -- olhou para Enzo, que se firmava em sua perna e sorria.

Passou a mão em seus cabelos e voltou seu olhar para Giovanna, falou baixinho:

-- Também acredito em duendes... -- e sorriu.

Giovanna baixou o olhar sorrindo da expressão da outra, lembrou do anúncio de Francisca. Não poderia esperar nada diferente. Olhou novamente para Enzo, que naquele momento queria ir para o colo de Antonella. Sabia que precisava dizer algo:

-- Pode começar quando, senhorita Antonella?

Antonella percebeu Enzo estendendo os braços para ela. Não tinha coragem de ficar indiferente aquele pedido. Levantou-o do chão, colocou-o em seu colo. Quando ouviu a pergunta, seus olhos brilharam num sorriso que fez Giovanna levantar de onde estava sentada e dirigir-se à porta.

-- A senhora já decidiu? -- perguntou levantando-se também, com Enzo em seu colo.

Giovanna, antes de alcançar a porta, virou-se e olhou por alguns segundos a cena à sua frente e respondeu:

-- Ele decidiu... -- sorriu e abriu a porta.

Saiu da sala e encontrou Francisca no salão aguardando para encaminhar Antonella até a porta e trazer a outra candidata, que já aguardava na biblioteca.

-- Explique o trabalho para a senhorita Antonella e peça para que ela traga os documentos o mais rápido que puder -- Giovanna falou assim que passou por Francisca.

-- Mas... Mas... Não vai conversar com a outra moça?

-- Não -- respondeu e foi em direção às escadas, sem olhar para trás.

Francisca ficou parada por alguns instantes e sem se mover, olhou para dentro da sala onde Antonella aguardava. Pensou: “Achei que seria mais difícil. Vamos ver quem conseguiu esse feito”, e caminhou em direção à sala com uma sensação estranha, algo como uma alegria apreensiva.

Capítulo 3


“Observando essa cena, fico tentando decifrar alguns enigmas que mesmo para mim, na situação em que me encontro, são obscuros. Não basta a simples necessidade para nos mover em busca da saciedade, como ocorre com os irracionais: é preciso admiti-la e permitir-se satisfazê-la. Mas isso é um exercício que o ser humano ainda não consegue realizar facilmente, por vários motivos. Um deles é ignorar a própria ignorância. A necessidade de buscar algo que não sabemos o que é nos faz ir à procura; dar o passo adiante; abrir a porta. Porém, só sabemos dessa necessidade que temos ou tínhamos depois que encontramos. 

Primeiro temos o hábito de sofrer. Afinal, somos frutos de uma moral que diz: “O sofrimento enobrece, engrandece, nos faz melhor.”
Ah! Que bobagem. O sofrimento nos faz sofrer, somente isso. E na maioria das vezes, nos dá aquele ar de superioridade diante dos problemas dos outros, no momento que falamos com toda a propriedade: “Eu já passei por isso...” 

Depois, existe aquele outro, que diz respeito à construção moral, que não permite o “desfrute”. Esse se realiza no escuro, quando portas e janelas estão trancadas, onde ninguém vê. Como se o pecado fosse considerado como tal, apenas quando público. Assim, nós prosseguimos, querendo, mas afirmando que não ou ignorando que queremos.

Aliás, voltando ao que me trouxe aqui, novamente, creio que foi muito rápido, Dona Giovanna!  Se deu ao desfrute muito rápido... Vi seu olhar para as pernas dela...

* * * *

Antonella olhava a chuva que caía intensa naquela hora da noite, o calor permitia a ela deixar a janela aberta. Fumava o último cigarro. Decidiu que era a hora de parar e, como num ritual de despedida e comemoração pelo emprego novo, abriu uma garrafa de vinho que estava guardando para essa ocasião.

Refez todo o caminho que percorreu depois daquele dia fatídico e percebeu que estava livrando-se dos fantasmas. Tinha consciência da responsabilidade que assumia, pois para ela, cuidar de uma criança era uma missão. Queria cumprir de forma perfeita. Intrigou-lhe a mãe do menino. Uma mulher fria, distante, triste, porém bonita... Não! Linda. Imaginava que o pai deveria ser tão belo quanto. Logo, tratou de espantar esses pensamentos. Olhou para as malas prontas, próximo à porta e sorriu. Levantou a taça e brindou consigo mesma. Sabia que a madrugada seria longa, pois a mesma insônia causada pela insegurança dos dias sem perspectiva agora tinha outro motivo, ansiedade do primeiro dia. 

* * * *

Giovanna não percebeu a chuva, seus olhos se mantinham fixos nas imagens projetadas na parede. Noite após noite, revivia os anos que ficaram para trás e que foram os mais felizes de sua vida. Via Camila dançando para ela no carnaval em Veneza; depois a Oktober em Munique; o verão em Florianópolis... Camila a chamava com o olhar para dentro da cabana. A velocidade das imagens em seu pensamento era a mesma das lágrimas que escorriam em seu rosto.

As noites que ficava em casa se tornaram um ritual: colocava Enzo na cama e se trancava naquele quarto que somente ela entrava. Passava das quatro da manhã quando acordou com o pescoço dolorido da posição desconfortável na qual adormeceu. Olhou ao redor e viu a garrafa de vinho pela metade, a chuva que entrava pela janela. A luz do projetor incomodou seus olhos, deu-se conta da realidade. Era como se durante o sono se transportasse para um lugar, um tempo em que Camila estava ao seu lado. Toda vez que acordava precisava de alguns segundos para recobrar a consciência, a realidade e perceber que entrava em outro mundo, o real. Uma passagem dolorida.

 ****

No primeiro dia de trabalho, Antonella chegou cedo, antes das oito. Francisca recebeu de Giovanna a incumbência de informar toda a rotina de Enzo e da casa. Apesar de Francisca ter insistido com ela para que participasse deste momento, saiu cedo, pois tinha reunião e afazeres na Agência. Então, as duas passaram a manhã conversando sobre vários assuntos, dentre eles as questões legais, o salário, folgas e dias livres. Conheceu a casa e os outros funcionários. Francisca mostrou seu quarto, que se localizava ao lado do de Enzo. Antonella guardou suas coisas, que não eram muitas, deu uma olhada rápida no quarto, no banheiro e saiu, pois Francisca a aguardava. Faria o reconhecimento mais tarde. 

Pela manhã, foi apresentada à Celina, a moça responsável pela limpeza; a Carmelino, o cozinheiro; e a Juventino, um senhor aparentando mais de setenta anos e responsável pelo jardim.  Todos foram muito simpáticos e agradáveis na acolhida. E somente no meio da tarde, ficou sozinha com Enzo. Francisca os deixou na sala de TV, um ambiente íntimo e aconchegante que se localizava entre os quartos, no piso superior da casa.

 Antonella percebeu que, na maioria dos aposentos íntimos da casa, havia fotos de Giovanna e de outra mulher, que inclusive aparecia grávida em algumas delas. Para sua surpresa, uma das paredes daquela sala possuía uma fotografia em preto e branco somente do rosto das duas, muito próximas. A foto preenchia a parede e o sorriso das duas era luminoso, assim como o olhar de Giovanna, completamente diferente do que Antonella viu nela no dia anterior. Passou na sua cabeça a possibilidade de que se tratava de um casal, mas logo pensou que poderiam ser irmãs ou qualquer outro parentesco.

Olhou para Enzo e sorriu.  O menino estava sentado no chão, olhando fixamente para a TV, no momento que Francisca fechou a porta. Antonella virou-se para ele, sorriu e disse:

-- Agora somos você e eu, vamos combinar algumas coisas.

O menino olhou para ela com uma expressão de quem entendia tudo.

Continuou:

-- Muito bem, primeira coisa: xixi no banheiro, bem como outras coisas também; quando sentir fome, você pede, aponta ou faz algum sinal que eu entenda; não chorar, nunca chorar; sempre que eu chamar, você vem; não pode me chamar de tia, tampouco de Antonia e nunca... Nunca de Tonha, tá entendendo?

O menino continuava olhando para ela, um pequeno sorriso se esboçou em seus lábios.  

Antonella continuou:

-- E não é por que você tem um ano e não caminha, é que vai ficar sempre no meu colo. Às vezes não vou querer brincar de carrinho... Temos que diversificar.

Ele estava tentando levantar, apoiando-se em Antonella, que segurou em sua pequena mão, ajudando-o...

-- Certo, de pé significa o quê? Passear? Brincar? Hmmm...  Já entendi... Só pelo cheiro. Muito bem! Começamos bem... O que faço agora? Por que não disse que ia fazer isso? 

Ele ria e se jogava nos braços dela. Antonella ficou por alguns segundos olhando nos olhos daquela criança, percebendo toda a responsabilidade que havia assumido e, também, o quanto queria isso. Pegou-o no colo e o abraçou...

-- Vamos tomar um banho, pelo jeito vou ter que usar um lava jato.

O menino ria, ela também.