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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Capítulo 2


Às 10h30, Antonella estava na frente da casa. Foi de táxi, pois se tratava de um condomínio retirado da cidade e pela fachada da residência, percebeu o padrão social das pessoas que viviam nela. A senhora que atendeu a porta - cabelos grisalhos, baixinha, com olhos castanhos profundos e com um sorriso amigável - falou tão logo a viu:

-- Deve ser a senhorita Antonella.

-- Sim, senhora -- Antonella respondeu retribuindo o sorriso.

-- Entre, a senhora Giovanna está terminado com uma candidata que marcamos antes de você.

-- Obrigada.

Antonella adentrou na casa tendo a impressão de que entrava num mundo antigo. Os móveis de madeira envelhecidos remetiam o observador ao século passado. Achou bonito, mas não combinava com o que considerava agradável, confortável. Ficou numa sala enorme, com dois sofás dispostos no centro, num dos quais se sentou. Tentou amenizar o nervosismo que sentia observando os quadros e a decoração da sala. Notou que não havia nenhuma foto, apenas quadros de paisagens ou de casas em ruas antigas. Começou a puxar uma mecha do cabelo, dar pequenos nós e desfazer. Fazia isso quando estava nervosa.

Depois de mais ou menos 10 minutos, a mesma senhora simpática retornou, sentou-se no sofá à sua frente e perguntou, sem tirar os olhos do papel que carregava nas mãos com o nome das candidatas.

 -- Trouxe a carta de referência?

Antonella sentiu seu rosto corar, olhou para o chão por alguns instantes, mas uma força que tirou não sabe de onde, a fez olhar firme para a senhora à sua frente e responder:

-- Não tenho referências, senhora.

-- Então, sinto mui...

Não terminou a frase, pois ao encontrar o olhar determinado e luminoso de Antonella, sua reação mudou. Ficou em silêncio por alguns momentos, procurando justificar para si mesma o porquê de não dispensá-la naquele momento. Sem encontrar esta resposta, sentenciou a uma Antonella ansiosa:

-- Mesmo não cumprindo um dos requisitos determinados pela senhora Giovanna, vou encaminhá-la para conversar com ela.

O sorriso de alegria de Antonella, quase que infantil, foi para Francisca a confirmação de que não estava errada.   

-- Vamos, menina, ela está aguardando.

-- Mas a outra pessoa já saiu? Não observei.

Francisca sorriu, percebeu que ela estava nervosa.

-- Saiu pelo escritório -- respondeu.

-- Ahn...

Antonella fez um sinal de confirmação e espanto com a cabeça, e sorriu. Acompanhou a senhora que a conduzia por um corredor com enormes quadros e artefatos artesanais de diversas partes do mundo. Atravessaram outra imensa sala, igualmente decorada, com uma grande mesa no centro.

A senhora abriu a porta dupla com as duas mãos e a primeira imagem que Antonella viu foi de uma criança, um menino que se firmando no enorme sofá, caminhava em direção a alguns carrinhos. Tentou soltar as mãos e ir em direção ao outro lado, porém, não tinha coragem de soltar a pequena mão, que segurava firme no sofá.

-- Aguarde um instante, ela logo atenderá a senhorita -- falou e se afastou, deixando Antonella, que naquele momento não ouviu as últimas palavras da senhora.

Já estava de joelhos no chão dando a mão ao menino e ajudando-o a ir em direção ao outro sofá. Ele alcançou o carrinho e olhou para ela, que sorriu. O sorriso que recebeu de volta, iluminado pelo olhar azul como o céu a fez ter vontade de segurá-lo. Não resistiu, pegou-o do chão e deu-lhe um beijo nas bochechas rosadas. Não percebeu a mulher parada na porta, observando-a...

***

Naquela manhã de segunda-feira, Francisca marcou cinco entrevistas, obrigando Giovanna a ficar em casa no período da manhã.

-- Espero que tudo isso dê resultado -- falou se encaminhando para a sala na qual havia escolhido receber as candidatas.

Preferiu não ser tão formal e optou por recebê-las na sala contígua ao grande salão de entrada, por ser mais confortável e mais íntima.

-- Vou deixar Enzo com você -- Francisca tentava de todas as formas aproximar Giovanna do filho.

-- Sim. Mas se ele não se comportar, chamo você -- Giovanna respondeu no momento em que Francisca o largou no colo dela.

Segurou-o e o largou, em seguida, no chão sobre o tapete, onde estavam dispostos carrinhos, bolas e jogos.

A primeira candidata, já no primeiro olhar, Giovanna percebeu tratar-se de uma senhora com idade que deveria estar em torno de 60 anos. Muito simpática, atenciosa, demonstrou carinho ao pegar Enzo no colo. Pensou imediatamente no que Camila falava sobre diferenças de gerações e dos conflitos que estas situações causavam. Não queria ter que administrar tais situações, pois sabia a personalidade forte do filho. Conversou rapidamente com a senhora, pois já havia decidido que ela não se adequava a função. Sem perder tempo, dispensou-a, agradeceu e despediu-se dizendo que Francisca ligaria para dar o retorno seja qual fosse.

A segunda candidata entrou e sequer olhou para o menino no chão. Foi com um sorriso aberto em direção a Giovanna e disparou:

-- Que casa maravilhosa a sua, e os móveis de muito bom-gosto.

Foi rápida da mesma forma. Não gostou, despediu-se e agradeceu. Na saída, a mulher passou a mão na cabeça do menino. Giovanna sorriu e pensou: “Camila me mataria”. Logo a tristeza invadiu-a novamente.

A seguinte que entrou, deixou claro que precisava de tempo para o marido, para os filhos, mas que conseguiria dar conta sem maiores problemas, falava rápido. Giovanna ouviu-a, mesmo procedimento anterior. Quando a porta fechou, suspirou.

Giovanna olhava para a mulher a sua frente, a quarta candidata, mas não a ouvia mais. Parou de ouvi-la no momento em que ela disse que toda criança precisava de uns tapas na bunda para saber o que era disciplina. Pensou: “Isso quem decide não é você”. Foi fria na despedida, estava irritada. Levantou-se tão logo a mulher fechou a porta, passou por Enzo, que tentava se levantar segurando-se no sofá.

Saiu da sala encontrando Francisca no caminho, que lhe dirigiu um olhar curioso.

-- Uma pior que a outra -- falou desanimada.

-- Calma, tem duas ainda.

-- Estou fazendo isso porque pediu, mas não acredito que encontraremos alguém dessa forma. Principalmente depois daquele anúncio, digamos -- estranho -- que você colocou. Só trouxe malucas.

-- Aonde vai? -- Francisca perguntou antes que ela sumisse em direção às escadas.

-- Ao banheiro, posso?

-- Rápido, tem outra esperando na biblioteca, e... Gostei dela.

-- Sei, vamos ver... Mais uma maluca. Olha o Enzo, por favor.

Subiu os degraus rapidamente. Suas longas pernas permitiam que os vencesse dois em dois sem esforço.

Quando retornou, não viu Francisca e imaginou que ela estaria com Enzo, esperando para encaminhar a próxima candidata. Dirigiu-se rápido para a sala. A imagem que viu fez com que aqueles segundos se arrastassem.

Uma mulher de joelhos no chão, de costas para ela, ajudando o filho a vencer a distância entre os dois sofás. O cabelo loiro brilhante, caindo nas costas, balançando conforme o movimento dos braços, a mão firme segurando a mão do menino que, pela primeira vez, dava os pequenos passos sem firmar-se em móveis. Percebeu o sorriso de Enzo para ela no momento em que chegou do outro lado. Surpreendeu-se quando ela o segurou do chão e o levantou junto ao corpo, dando-lhe um beijo na face. Lembrou-se da última vez que viu Camila beijá-lo.

Entrou na sala.

-- Bom dia.

Sem olhar para a mulher, como se tal ato fosse um desrespeito ao seu amor por Camila, como se a simples presença daquela mulher dentro da casa fosse ferir a redoma na qual havia se colocado, não podia permitir-se. Sentou-se segurando e olhando para o papel que Francisca havia feito as anotações das candidatas.

-- Antonella, senhora -- respondeu largando o menino no chão e dirigindo-se para o sofá em frente ao que Giovanna estava sentada. Enzo ao ser colocado no chão posicionou-se rapidamente para engatinhar atrás da mulher.

Antonella sentou-se e observou a mulher na sua frente, escrevendo algo compenetrada, como se fosse muito importante, sem olhar para ela. Ficou nervosa.

Giovanna continuou escrevendo, passou a caneta em cima de cada letra do nome já escrito por Francisca.

 “Antonella”, e calmamente levantou o olhar para a mulher à sua frente. A percepção que teve fez com que os poucos segundos se tornassem mágicos, pois duraram séculos em sua mente.  Percorreu lentamente o que viu e sentiu-se eterna no que não viu.

Com sandália de tiras largas amarradas no tornozelo, as pernas esguias e lisas, sendo ofuscadas pelo vestido que terminava no joelho e subia solto dando leveza ao corpo. Abaixo dos seios se tornava justo, valorizando as formas e indicando a beleza que estava intrínseca no conjunto. A boca pequena com lábios definidos, proporcionais ao rosto delicado, cujos olhos de um verde cristalino indicavam os motivos do encantamento de Enzo: parecia um anjo. O olhar profundo lhe desnudando a alma, como se arrancasse o que havia guardado no fundo de suas entranhas, ela o expunha... Assim, transformando o sagrado em profano, rapidamente. Não encontrou mais o anjo.

Antonella percebeu algo na mulher à sua frente que não conseguiu definir: uma tristeza imensa emanava de sua alma. Antes que pudesse olhar em seus olhos percebeu que o menino estava aos seus pés. Olhou para ele e sorriu. Abaixou-se e ajudou-o a se segurar no sofá em que ela estava sentada. Assim que percebeu que o menino estava firme, levantou os olhos para a mulher e encontrou um olhar cujo magnetismo a prendeu por alguns instantes: o azul cristalino combinado a uma escuridão que jamais viu. O mesmo olhar do menino.

Giovanna rompeu o olhar ao dirigir-se ao filho.

-- Este é Enzo.

-- Lindo menino e simpático – Sorriu sincera.

Giovanna ficou em silêncio por alguns momentos, pois não sabia mais o que dizer. Esqueceu-se completamente das perguntas que deveria fazer, tossiu, moveu-se na poltrona.

 Antonella olhava para ela esperando que começasse. Os segundos que se seguiram foram totalmente estranhos e angustiantes para as duas mulheres. Até que Antonella resolveu falar.

-- Creio que é para cuidar de Enzo, o anúncio, estou certa? -- perguntou sem jeito, mas firme.

-- Sim... É -- Giovanna limitou-se a dizer.

Pensava que tinha que perguntar algo, mas novamente Antonella falou antes.

-- Resolvi responder ao anúncio por alguns motivos que gostaria de deixar claros, pois não quero perder meu tempo nem o seu, portanto serei sincera com a senhora.

Buscou o olhar de Giovanna, que não conseguiu desviar, tampouco articular palavras. Apenas consentiu com a cabeça para que Antonella continuasse.

-- Apesar de não ter experiência nenhuma com crianças, adoro. Mas não tenho filhos por alguns motivos que não me permitiram. Estou me separando de meu marido e procuro independência financeira, tenho total disponibilidade e necessidade de morar no trabalho. Quanto às exigências do anúncio, bem... -- sorriu e continuou, diante do olhar indecifrável de Giovanna.

-- Adoro ler, leio muito; não jogo bola muito bem, mas aprendo. Nunca troquei fraldas, mas com umas aulas creio que não é difícil. Só tem um problema... -- olhou para Enzo, que se firmava em sua perna e sorria.

Passou a mão em seus cabelos e voltou seu olhar para Giovanna, falou baixinho:

-- Também acredito em duendes... -- e sorriu.

Giovanna baixou o olhar sorrindo da expressão da outra, lembrou do anúncio de Francisca. Não poderia esperar nada diferente. Olhou novamente para Enzo, que naquele momento queria ir para o colo de Antonella. Sabia que precisava dizer algo:

-- Pode começar quando, senhorita Antonella?

Antonella percebeu Enzo estendendo os braços para ela. Não tinha coragem de ficar indiferente aquele pedido. Levantou-o do chão, colocou-o em seu colo. Quando ouviu a pergunta, seus olhos brilharam num sorriso que fez Giovanna levantar de onde estava sentada e dirigir-se à porta.

-- A senhora já decidiu? -- perguntou levantando-se também, com Enzo em seu colo.

Giovanna, antes de alcançar a porta, virou-se e olhou por alguns segundos a cena à sua frente e respondeu:

-- Ele decidiu... -- sorriu e abriu a porta.

Saiu da sala e encontrou Francisca no salão aguardando para encaminhar Antonella até a porta e trazer a outra candidata, que já aguardava na biblioteca.

-- Explique o trabalho para a senhorita Antonella e peça para que ela traga os documentos o mais rápido que puder -- Giovanna falou assim que passou por Francisca.

-- Mas... Mas... Não vai conversar com a outra moça?

-- Não -- respondeu e foi em direção às escadas, sem olhar para trás.

Francisca ficou parada por alguns instantes e sem se mover, olhou para dentro da sala onde Antonella aguardava. Pensou: “Achei que seria mais difícil. Vamos ver quem conseguiu esse feito”, e caminhou em direção à sala com uma sensação estranha, algo como uma alegria apreensiva.

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